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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

E A PAIXÃO MISSIONÁRIA ONDE FOI PARAR?

Por: Alex Branco


Meu chamado missionário deu-se na adolescência. Em nossa igreja sempre havia missionários que por lá passavam e contavam-nos suas experiências adquiridas nas mais diversas partes do mundo.

Foi ali, no convívio da igreja, que ouvi falar do mundo islâmico, budista, hindu e comunista. No seio da igreja sonhei com os campos missionários e com a possibilidade de glorificar a Deus com minha vida. Nesta ocasião era praticamente impossível ler Mateus 28:19-20 sem as lágrimas virem aos olhos.

O tempo passou, o adolescente cresceu e o sonho tornou-se realidade. Tive o imenso privilégio de servir ao Senhor no mundo hindu por vários anos e nos últimos sete anos num contexto pós-cristão da Europa. Minha paixão pela missão continua a mesma, apenas mais amadurecida, já com alguns fios de cabelos brancos, e ainda hoje é impossível ouvir alguém falar de missões entre outros povos sem que as lágrimas me venham aos olhos.

Nestes quase quinze anos fora do Brasil e envolvido com a obra missionária, foram raras as oportunidades de voltar à “pátria amada”. No entanto, a cada retorno foi possível notar um esfriamento cada vez maior da paixão missionária. Lembro-me da ocasião em que as pessoas nos procuravam desejosas de saber sobre os povos do mundo e das necessidades missionárias. Já na minha última viagem ao Brasil a pergunta mais comum era: “Europa, interessante, lá é bom mesmo para se ganhar dinheiro?” Aliás, acredito que as necessidades missionárias da Europa sejam as mais desconhecidas da igreja brasileira. Quantos brasileiros sabem das milhares de cidades da Europa sem uma única igreja cristã? Só no pequeno Portugal são quase cinqüenta cidades sem igrejas.

O sentimento que tenho é que a igreja brasileira assumiu a sua responsabilidade, mas perdeu a paixão. Da última vez que lá estive raras eram as pessoas interessadas em falar sobre missões. Faz-se missões, mas não mais refletimos sobre o assunto. O resultado é um distanciamento daquilo que hoje acontece no mundo missionário, suas novas tendências, os novos alvos e, acima de tudo, nada se fala dos mais de doze mil povos não alcançados e muitos ficam espantados ao ouvir que ainda hoje missionários e cristãos são mortos ou lançados em prisões por causa do Evangelho, para estes, estas coisas de perseguição não passam de alguns relatos do Novo Testamento.

Hoje o missionário é um problema que a igreja brasileira tenta administrar dentro das suas prioridades locais. O assunto administra-se da maneira mais conveniente possível, conveniente para a igreja local, não para o missionário. Nós, brasileiros, gostamos da glória da missão, não do custo da missão. Gostamos de dizer que o “Brasil é o Celeiro do Mundo”, mas nos esquecemos de dizer que os missionários brasileiros estão entre os que menos recursos recebem de suas igrejas, e que raríssimos são os casos dos que possuem algum plano de aposentadoria.

Lembro-me da ocasião em que nos reunimos na Noruega. Éramos um grupo de cinqüenta brasileiros envolvidos com missões, sentíamo-nos o grupo mais especial do mundo, até que ouvimos o reitor da faculdade missionária da Noruega que, com detalhes e aquela humildade típica dos noruegueses, falou-nos como fazer missões de verdade, e contou-nos sobre a missão desenvolvida por missionários noruegueses em Madagascar ao longo dos anos, onde estão sepultados ao menos mil e quinhentos missionários noruegueses, mortos pelos mais variados motivos. A igreja brasileira ainda está muito longe da realidade do custo da missão.

Outra coisa importante a aprender com os nórdicos sobre como fazer missões está no tratamento que recebe o missionário norueguês. Em sua maioria possuem os mesmos direitos sociais e financeiros dos pastores locais. Isto significa que, após uma determinada idade, os missionários poderão contar com uma pensão vitalícia que garantirá o sustento na velhice e a garantia de provisão para a família. No caso brasileiro, a menos que o missionário faça contribuições por conta própria para a previdência social ou privada, chegará à velhice em uma situação constrangedora. Mas como a igreja brasileira ainda é muito nova no seu envolvimento missionário, pouco se pensa sobre este assunto. Não posso deixar de elogiar algumas juntas missionária e igrejas que agem diferente nesta questão e investem no futuro de seus obreiros.

Como podemos ver, a questão da missão é muito mais séria que enviar cinqüenta reais ou mil reais por mês para um missionário no campo. É uma questão de consciência missionária, de real envolvimento com todos os aspectos da vida do missionário, afinal, “digno é o trabalhador do seu salário” (Lc 10:7). Lembro-me da irmã Hanna, uma missionária aposentada, membro da nossa igreja na Noruega que, depois de mais de quarenta anos de serviço missionário na África, gozava de sua velhice a tocar piano em casa e nos lares de idosos que ela visitava semanalmente, como uma forma de manter-se ativa. Um dia numa conversa com ela fiquei surpreendido ao ouvir desta irmã que todos os seus mantenedores que a apoiaram quando ela saiu para missões na África, os que ainda viviam, continuavam a lhe enviar ofertas mensais, mantendo um lindo relacionamento entre mantenedor e missionário por mais de cinqüenta anos. Será que no Brasil algum dia ouviremos histórias assim de nossos missionários? No meu caso, um anos após ter saído para Índia, dos que se comprometeram comigo, 60% acabaram por desistir.
É tempo de repensar nosso envolvimento missionário, restaurar a paixão perdida, buscar aprender com outros povos como fazer missões de forma efetiva e duradora. O orgulho missionário brasileiro de nada serve, só nos atrapalha. Não somos o celeiro do mundo missionário, países menores e mais pobres que o Brasil, como a Argentina, por exemplo, enviam e sustentam mais missionários que nós. A Coréia do Sul possui mais de doze mil missionários em mais de cento e cinqüenta países do mundo, e o número tende a crescer. O cuidado da igreja coreana com seus missionários é muito superior ao cuidado recebido pelos missionários brasileiros. É preciso humildade, paixão, seriedade, e desejo de fazer missões de forma correta.
Sei que meu clamor pouco impressionará alguns, irritará a outros, mas é apenas um clamor escrito no sofá de casa, com minhas filhas aos pés, cada uma nascida em um país diferente, são também filhas da missão, mas espero que possa despertar a paixão e o pensamento de outros.

Quanto a mim, continuarei na missão, venha o que vier, continuarei a sonhar e trabalhar pela conversão do mundo, continuarei a chorar quando ouvir Mateus 28:19-20 e ao ler histórias missionária como a de Adoniram Judson que li mais uma vez hoje pela manhã. Até que todos tenham ouvido.

Fonte: O Cuidado Integral de Missionários - Um forum para reflexão e encorajamento http://cuidadointegral.info/

terça-feira, 27 de julho de 2010

CHAMADOS PARA SERVIR




Chamados para Servir



Por Milene C.S. de Castro

Texto do Evangelho de Mateus, capítulo 20 versículo 28.

“como o filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos”. (Mt 20.28 )

Em vista de tudo o que Deus fez, faz e fará pelo seu povo em Cristo, é de se esperar uma resposta deste povo à ação de Deus.

Mas que tipo de resposta deve-se esperar de nós, pecadores? A Bíblia é clara em revelar que Deus espera que a vida do cristão, assim como a vida do Cristo, fosse dedicada ao serviço.

Porém, temos dois problemas. Que tipo de serviço devemos prestar e a quem devemos servir? Historicamente podemos perceber o serviço cristão se manifestando de diversas maneiras.

Cada uma destas formas são frutos de circunstâncias sociais, políticas, culturais e econômicas a que os cristãos foram submetidos ao longo dos últimos 2.000 anos.

Mas, entre erros e acertos do exercício do serviço cristão, há verdades. Há referenciais. Há uma vontade imutável de Deus. Quais, então seriam as verdades que existe por trás do chamado para servir?

Para encontrar estas verdades em meio a inúmeras distorções a respeito do serviço cristão, proponho que primeiramente analisemos alguns mitos relacionados ao servir a Cristo.

1º mito: O mito Ministerial.

Este mito se baseia na crença de que o serviço cristão é somente para os vocacionados para o ministério.

Temos então líderes, pastores, missionários, obreiros, profetas, diáconos, seminaristas, enfim, uma casta de pessoas especiais que foram apontadas por Deus e, por causa disto, seriam especialmente capacitados para trabalhar, isto é, servir em favor da igreja.

Este tipo de pensamento causa certa apatia em muitos irmãos que poderiam estar servindo a outras pessoas e não o fazem por não se sentirem escolhidos por Deus

2º mito: O mito da recompensa.

Neste mito percebemos que o serviço cristão é usado como moeda de troca. O sujeito se coloca à disposição do Reino porque acredita que essa atitude seria garantia de benefícios divinos.

Assim, ele se sujeita ao serviço cristão convicto de que quanto mais ele se entrega aos outros mais bens materiais, mais curas, mais milagres, mais livramentos de causas impossíveis, mais coisas boas acontecerão com ele.

Estas pessoas se acham merecedoras de uma vida bem sucedida por que servem a Deus.

E muitas vezes se revoltam contra Deus ou deixam de servir ao próximo por não sentirem suficientemente recompensadas pelo grande esforço que fizeram.

3º mito: O mito da panelinha.

Se encaixam neste terceiro mito aqueles que restringem o serviço cristão aos irmãos da fé.

Nestes casos vemos pessoas que se voltam totalmente para a igreja ao mesmo tempo que dão as costas para o mundo.

Esse conceito é freqüentemente praticado pelos separatista bíblicos, que pensam equivocadamente que o amor de Deus é para aqueles que são santos.

Então temos aqui cristãos que cultivam uma vida fechada em si mesma e que não testemunham para o mundo o amor de Deus.

Preposição

É a partir desses mitos que ofuscam a beleza e a excelência que existe no serviço cristão, que eu quero propor uma reflexão baseada no que Deus fez por nós através do Cristo e, sob o impacto da obra de Cristo, qual deve ser nossa atitude para com todos os que nos cercam.

É primordial que entendamos que o serviço cristão não existe para benefício próprio. Muito pelo contrário, ele existe sempre para o benefício do outro.

Paulo, em Galátas 5.13, disse que fomos chamados para a liberdade, mas não devemos usar esta liberdade para dar vazão aos nossos desejos egoístas, mas sim para servir uns aos outros mediante o amor.

Podemos então perceber que Paulo compreende que uma das respostas de um cristão verdadeiro ao amor Deus é exercer este mesmo amor em relação ao próximo, é servindo ao outro com alegria sem esperar nenhuma forma de reconhecimento.

Mas, além de compreender, que devemos servir a todos incondicionalmente, o que mais Deus espera que compreendamos sobre o serviço cristão?

A Bíblia apresenta vários princípios que podem nortear nossas ações em favor do outro. Em contraposição aos 3 mitos, vou destacar apenas 3 verdades sobre o serviço cristão:

1ª verdade: o chamado para servir é para todos os cristãos.

O reino de Deus, inaugurado com a entrada de Jesus na História, teve como objetivo formar uma nova humanidade.

Uma das implicações dessa nova humanidade é a compreensão de que todos nós possuímos um só senhor: Cristo Jesus.

O entendimento desta nova realidade nos leva à conscientização que somos todos servos uns dos outros. Não possuímos entre nós senhores que dominem.

A reforma protestante chamou esta verdade de “sacerdócio universal de todos os cristãos” , onde Jesus Cristo é o grande sumo sacerdote e todos os cristãos partilham desse sacerdócio na forma de adoração, testemunho e serviço.

Logo, o serviço que todo cristão deve exercer é centrado no modelo de seu Senhor e não nos desejos corrompidos do seu próprio coração.
Independente de nossas funções eclesiásticas, como membros do corpo de Cristo todos somos chamados ao serviço. TODOS!

2ª verdade: o chamado para servir não possui garantia de benefícios divinos.

É muito comum percebermos entre os irmãos, alguns que cultivam um relacionamento com Deus baseado em troca de favores.

Muitas pessoas acreditam que merecem receber algo de Deus porque são membros ativos de uma igreja (freqüentam os cultos, ofertam regularmente, participam de vigílias, ou seja, cumprem todas as suas obrigações religiosas).

Elas acreditam que o simples fato de participarem de uma agenda de eventos da igreja, estão servindo a Deus e portanto merecem ser grandemente abençoados.

Por causa de pensamentos como este, muitas pessoas têm tentado manipular a Deus, ordenando que ele atenda aos desejos e caprichos de um coração egoísta.

Um exemplo disso são os fariseus no novo testamento, que sempre se acharam merecedores da bênção de Deus por que cumpriam a lei.

A resposta de Jesus foi que as obras que eles faziam eram apenas para serem vistas pelos homens, pois o coração deles estava longe de Deus.

O cristão precisa compreender que ele deve servir ao próximo e que deve fazer isso por amor.

Quando a atitude de servir é motivada por expectativas de ganhos posteriores de qualquer natureza, não temos uma relação de amor, e sim uma relação capitalista.

A atitude altruísta do cristão, que surge no coração corrupto do homem, motivada exclusivamente por Deus, atinge e abençoa o próximo e gera testemunho da obra de Cristo.

O cristão necessita ter sempre em mente que o ato de servir, na perspectiva das Escrituras, implica numa oposição radical ao sistema de vida mundano.

A essência do serviço motivado pelo amor, vai inspirá-lo a ajudar ao próximo mesmo que essa ajuda não resulte em nenhum retorno material, financeiro ou de reconhecimento.
Neste sentido o serviço cristão é:
Submeter-se à vontade do nosso senhor, Jesus Cristo.

É obedecê-Lo mesmo que tenhamos que perder nossos direitos e negar a nós mesmos.

É estar disposto a carregar a nossa própria cruz.

E servir ao próximo porque é isso que Deus espera de nós, e não porque nós esperamos obter algum benefício.

Servir é conseqüência do que Cristo fez por nós e não um investimento para receber bênçãos no futuro.

3ª verdade: o chamado para servir não faz distinção de pessoas.

Um grande teólogo do século 20, Bonhoeffer disse que a igreja só é igreja quando existe para os outros. A igreja não existe para si, mas para o mundo.

Nós também podemos afirmar que o cristão só é cristão verdadeiro quando serve aos outros. Quando existe para o mundo e não para ele mesmo.

Nós devemos servir a todos: ricos, pobres, negros, índios, mulheres e toda sorte de pessoas que estiverem próximas a nós.

O objetivo de servir a todos, indistintamente, visa a restauração do reino de Deus em toda a sua harmonia.

É o governo de Deus expresso no serviço cristão para a reconciliação da criação com o Pai.

Toda essa reflexão me faz lembrar uma história muito curiosa que ilustra bem como a compreensão do serviço cristão pode, na prática, influenciar nossas atitudes.

Havia uma diarista que costumava “dar um jeitinho” para facilitar o seu trabalho de limpeza nos locais em que trabalhava.

Sempre que varria a casa, ela costumava esconder a sujeira debaixo do tapete ao invés de recolhê-la com a pá e jogá-la no lixo.

Essa diarista foi evangelizada e, após sua conversão, ela começou a recolher a sujeira para jogá-la fora.

Questionada sobre sua mudança de comportamento, ela explicou: Agora eu entendo que meu serviço não é para agradar a mim e nem os meus patrões. Depois que eu me converti compreendi o valor do servir a Deus. Faço as coisas corretamente não para ser reconhecida como uma boa diarista, mas faço meu trabalho com capricho para agradar a Jesus.

Assim, como esta diarista vocês e porque não, todos nós, temos a oportunidade de deixarmos o amor de Deus transformar as nossas atitudes diárias em expressões do Reino de Deus.

Conclusão

Meu desejo é:
“que haja em nós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus...” a mesma humildade, a mesma disposição e o mesmo amor para com o próximo e que possamos reconhecer que somos servos uns dos outros.

Que Deus nos abençoe!

Milene C.S. de Castro é professora de História do Cristianismo, História da Teologia e Teologia Contemporânea no seminário Teológico Batista do Brasil (STEB)